terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Sobre ética e as câmeras escondidas: não vale tudo



Lembro das aulas de ética quando estudante de comunicação. Já sabia interessante a reflexão sobre os atos, suas consequências, o limite que os valores adequados da profissão lhe impõem. Com as mãos no queixo para pensar a sociedade hoje, vejo que o interessante tornou-se cura. Estamos perdidos quanto aos limites da razão, a despeito da obrigação coletiva em saber, falando em comunicação, da sua ética.

Das aulas de ética, lembro do intenso debate sobre fatos como a utilização de câmeras escondidas na produção e apuração de notícias. Era importante determinar que a privacidade alheia não se aliena às nossas intenções, ainda que essas possam ser defendidas pelos fins a que se dedicam. O bem que se pretende atingir deve ser medido e pesado, comparado e polido; em resumo, não é trunfo apenas por ser.

A filosofia entende a ética como um ramo prolífero de estudos. Não é aqui que vamos de alguma forma esgotá-lo, mas, para ajudar no trajeto que esse texto pretende, apenas pontuo algo sobre esse conhecimento. A ética se apresenta como uma pergunta. Como devo agir? Difere, assim, da moral, que se apresenta como regra. “Não devo agir assim”. O esquema simples, porém brilhante, pertence a Deleuze, e nos ajuda a compreender os meandros dos dilemas que temos cotidianamente.

A conclusão sobre o uso de câmeras escondidas, que em certo período do jornalismo tornou-se viral, foi retumbante quanto a sua restrição a casos extremos, muito específicos, sob pena de tornar-se inútil por infringir a orientação ética básica de respeito ao indivíduo e à sua privacidade. Reportagens que recorriam a essa tática, especialmente na TV, se utilizavam de recursos gráficos para em último ato proteger a identidade de pessoas que não autorizaram o uso de sua imagem. Sempre foi uma pauta controversa.

Fora das salas de aula, observo com estranheza e preocupação a prática que se popularizou, em sentido estrito, de gravar pessoas através do celular, enquanto essas não o sabem. Em regra, uma armadilha.

Recentemente, recebi em vídeo, a gravação do ex-presidente do Cruzeiro, Wagner Pires de Sá, sendo perguntado por um cidadão sobre temas do clube. Naturalmente, não sabia que estava sendo gravado. O cidadão o fez em rapina. Wagner disse coisas que tem valor de notícia, por se referirem a pessoas de contexto importante no clube de futebol, e o vídeo tornou-se pauta dos principais veículos do país.

Semanas antes, havia sido o presidente do Atlético, Sérgio Sette Câmara, que durante um vôo, teve uma fala gravada, que retirada de contexto, depois se publicou em redes sociais. As redes sociais merecem um longo debate, mas não agora, porque estamos sobre o alicerce.

Preocupa - e esses são apenas dois exemplos de outros tantos - a multiplicação desse comportamento na sociedade. Constrói-se no estado policialesco, na noção pávida e cruel do punitivismo e do revanchismo, arvorando o cúmulo das nossas doenças sociais contemporâneas, o espetáculo. Afastado o bom senso, tudo vira motivo para a escalada das redes, o desejoso topo dos influenciadores, a nata do nada.

Não importa quem seja, e o que venha a dizer. Nada dá o direito a alguém de através de um ardiloso plano, gravar às escondidas outra pessoa, para depois expô-la, em redes sociais e afins. É errado. É antiético. E é crime. Retomando a noção de bem, pela qual perpetua o direito, não se pode deixar de argumentar que a privacidade, o direito de imagem, o direito de personalidade não pode ser violado pela intenção duvidosa de quem quer que seja, especialmente ansioso por holofote e confete. É errado. Ultrapassa os limites da razão, e nos torna pessoas ruins.

Precisamos voltar a pensar no “como agir?”, tal qual a necessidade de saber o que ofende, o que está além do aceitável, o que é cruel e maléfico ao coletivo. Viver em sociedade é entender esses limites. Seja no mundo real ou, principalmente, no virtual, no qual se projeta de forma insistente o pior de nós.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

8/24: Dear Mamba


“E o outro ala, pela última vez o número 24 em quadra, 18 vezes All-Star, terceiro maior cestinha da história da NBA, 5 vezes campeão da NBA, Kobe Bryant...”  

O locutor foi sucinto. Era a última vez que Kobe saia dos túneis do Staples Center. Despedia-se em quadra do basquete. De súbito, me senti órfão, como se dali por diante um imenso vazio se aplacasse sobre o esporte que pratiquei e pelo qual ainda sou encantado. Durante anos, torci por Kobe, pelo seu sucesso, pelas suas vitórias, pelas suas jogadas e conquistas, como um admirador daquilo que de mais perfeito se viu nas quadras desde MJ. 
Foi em 2000, e registro a data após pesquisa, no dia 04 de junho, que tive meu alumbramento por Kobe. Era o jogo 7 das finais de conferência daquele ano. Os Lakers perdiam por muito, e a derrota significaria serem eliminados em casa. Descrevo a cena no éter que a tenho, sob o risco de o vídeo me trair a poesia:
Kobe recebe a bola ainda na quadra defensiva. Arma o time. Na marcação, Pippen, um dos maiores jogadores da NBA, ainda que em fim de carreira. Kobe balança na lateral, e ganha a cabeça da quadra. Minha impressão é de que ele irá definir. Na jogada anterior, tinha feito o mesmo movimento, e acertado um jump daquela posição. Por um segundo, ele parece fazer uma indicação ao companheiro, pedindo um bloqueio. Era uma armadilha. Seus olhos estavam no fundo-quadra, do lado oposto.
 Ele aplica um crossover, drible muito popular hoje, sobre Pippen, e invade o garrafão. Três jogadores na sua escolta. Pippen tentando se recuperar, e outros dois fechando o seu arremesso, daquela posição, fatal. Kobe salta, todos pensam ser uma repetição da jogada anterior. Com um movimento de pulso, ele flutua a bola, sem giro, na direção do aro. Do fundo, Shaq sozinho finaliza a jogada com uma ponte aérea. Era o que Kobe planejava desde o começo, e que ninguém mais, além do próprio Shaq, conseguira perceber. 
 A icônica jogada é até hoje lembrada nos melhores momentos da liga. É de fato uma cena de brilhantismo ímpar. Mas não foi a genialidade daquele basquete que me chamou atenção, a ponto de me encantar para sempre. Foram os instantes após. Shaq sai em disparada comemorando efusivamente. Abria os braços enormes tão em êxtase quanto a torcida enlouquecida. Na corrida, a câmera o filma passando por Kobe.
Lá estava ele: expressão taciturna, voltando de costas para a quadra de defesa, observando o adversário no fundo-quadra. Não desviava o olhar. Os companheiros se abraçando e já comemorando a possível vitória épica. Kobe em outro universo. Ainda faltavam cerca de 40 segundos no cronômetro. A mente de Kobe se preocupava com o que ainda poderia acontecer. Uma concentração inabalável. A realidade daqueles, poucos, e raros, que vislumbram o jogo em um tempo diferente, futuro, em repetido déjà vu. 
Aquele olhar. Morteiro e sem trégua. Reto, sem desvio. Subjugador e confiante. Era o modo como demonstrava que ninguém ali lutaria mais pela vitória que ele. O olhar dos que fascinam a vitória pelo suor incessante de seu rosto. O olhar do campeão.
A mim, foi como o condão que nos faz criar laços com o intangível, o encanto inexplicável por aquilo que lhe representa o sonho, a coisa que te leva para outro lugar fora do fastio da realidade. O ídolo. Eu o via como uma referência de amor ao esporte, e mais além, de coisas outras que transpõem essa fronteira.
Era um homem belo, e me lembro de reconhecê-lo assim. E que não se subestime o que é para um garoto da periferia, sem muitos recursos, achar em um personagem tão icônico semelhanças físicas consigo mesmo, e por isso reconhecer também em si alguma beleza. A TV pálida, de heróis de pele clara, criados a partir de um estereótipo que jamais alcançaria. O conceito hegemônico de belo que oprime e segrega. Kobe me ajudou a superar essa barreira. Eu queria ser como ele.
Era extremamente inteligente. Poliglota, falava espanhol e italiano fluentemente. O modo como se relacionava e falava de outras culturas mostrava seu interesse para além do ícone americano. Essa característica, sem dúvida, colaborou para que ele, diferente de outros grandes das ligas americanas, alcançasse outro patamar em lugares nos quais nem sempre havia empatia por seu país. Foi o respeito de Kobe pelo basquete europeu que transformou a visão da liga pelos jogadores daquela praça, o que acabou também por transformar a própria NBA.
Seu sucesso nas quadras e o modo como lidava com o jogo eram mais do que inspiração, uma reiterada cobrança para que também me superasse. A ideia “mamba” era (e ainda é) sempre considerar o próximo passo. Nunca estagnar. Sempre evoluir. Como se fosse o primeiro dia. Como se fosse o começo de tudo.
Recordo um episódio ligeiramente recente, durante a penúltima temporada de Kobe com os Lakers, que exemplifica o que digo e do qual tirei grandes lições:
O time era ruim, e muito jovem. Estava mal, perdendo jogos seguidos, e Kobe, naturalmente, chateado. Não com as derrotas, mas pelo ritmo dos treinos. Certa manhã, muito cedo - era sempre o primeiro a chegar – os jogadores aqueciam e conversavam para iniciarem as atividades. Kobe demonstrando pouco humor começou a questionar os sorrisos e o atraso. Com o treino em andamento, pressionava os companheiros, em tom ríspido. Questionado, respondeu: “Se vocês não precisam melhorar, eu preciso. Preciso treinar”.
“Preciso treinar” passou a ser um dos meus lemas. Sempre precisamos melhorar, nos superar, em tudo.
Ao fim da carreira em quadra, achei que ficaria órfão dos talentos de Kobe. Ele me surpreendeu novamente. Primeiro, com um programa para TV muito inovador, “Detail”, em que analisava vídeos destrinchando o que acontecia na quadra com uma maestria sem igual.
 Depois, com a animação que roteirizou, narrou, e construiu o argumento, a partir do poema que escreveu na sua despedida do basquete. Uma coisa linda, repleta de sensibilidade, e de uma cadência emocionante, da qual nem o mais duro coração é impassível. Chorei no Oscar. Chorei.
Chorei nas reprises. Nas homenagens. Chorei ao lembrá-lo falando sobre as filhas. De Gigi acertando arremessos enquanto treinavam. Chorei.
Ainda tenho Kobe em um lugar especial na minha estrutura como sujeito nesse mundo. De preconceitos, discriminações, de ódio e desigualdade. Kobe está na outra parte, a do respeito, da inteligência, do amor, da dedicação, da superação, do talento, do trabalho, da vontade de seguir adiante.
Tive um sonho com Kobe. Ou talvez não fosse sonho. Talvez tenha fechado os olhos para lembrar, como uma fantasia que se quer reviver. As luzes se apagavam, e flashes apontavam para o túnel que leva para a quadra. O locutor anunciava:
“O ala, com os números 8 e 24, medindo 1,98 m, 5 vezes campeão da NBA, 2 vezes MVP das finais, uma vez MVP da temporada, 2 vezes cestinha da liga, 18 vezes All-Star, 4 vezes MVP do All-Star Game, 15 vezes no time ideal da NBA, 12 vezes no time ideal de defesa da NBA, 1 vez campeão do torneio de enterradas, 4º maior cestinha da história da NBA, o bicampeão olímpico, o vencedor do Oscar de melhor curta de animação, o eterno, o único, Kobe Bryant.” 

Para sempre Dear Black Mamba. 

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Bolsonaro e a estratégia da negação: o obscurantismo ameaça a ciência

Conhecer exige esforço. A porca solução do ignorante é negar. A negação cria uma apreciação própria da verdade, subjuga a ciência em função da fé, fonte moral que norteará a nova ética. Torna-se, nesse processo, um pensamento soturno, sombrio, e por isso conhecido como obscurantista; irritado em face da luz, que míngua em prol do individualismo sensível. Acredito, não acredito, a despeito do que se prove em contrário. A segurança da caverna é também o conforto do ego, resguardado do mundo crítico.
A negação, por ser tão óbvia estratégia inútil, foi por tradição de imediato repelida pelo pensamento sério. Assim aconteceu até que encontrasse na tez porosa social caminho para o centro do poder, reverberando entre humilhados e desprotegidos, nichos repelidos socialmente, alargados pela comunicação massiva e incompreendida de redes virtuais de interação, sem filtro e polissêmicas.
O que era esdrúxulo hoje governa, orienta países, tais como o Brasil. O presidente Bolsonaro é um exemplo claro – traduz melhor o “não pensamento” - de como se engendra a negação, o obscurantismo, na sua estrutura de comportamento, na sua ética.
Em menos de seis meses de governo, Bolsonaro já negou a existência do racismo, negou a crise econômica, negou o desmatamento da Amazônia, negou a seca no semi-árido brasileiro, e, mais recentemente, negou que exista fome no Brasil. A sua retórica comum é o “não acredito”. O objetivo é construir uma verdade própria que seja capaz de embasar uma nova visão da realidade, que a tome por uma suposta ideologia, desconstruída de ciência, e vivida pela fé.
Retomar o cetro da razão requer estratégia melhor que ridicularizar afirmações obscurantistas como as de Bolsonaro. É preciso retornar ao cerne da episteme racional, ao ponto de partida dos conceitos, anunciá-los do ponto zero, a fim de solidificá-los da raiz, passo a passo. Não é uma disputa de gritos. No grito, a ignorância vence.
Em tempo, descrevo:
Fome: substantivo feminino; urgência de alimento, subalimentação, falta do necessário; penúria, miséria, situação de míngua ou escassez de víveres. (Dicionário Aurélio).
A ONU, através da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), divide, para fins de pesquisa a fome em duas categorias:
Moderada – pessoas sem recursos para alimentação regular, saudável; aqueles que ficam ocasionalmente sem se alimentar.
Grave – pessoas que ficam dias inteiros sem comer, em vários períodos do ano.
Em 2018, a FAO divulgou relatório de segurança alimentar na América Latina e Caribe, no qual apontou que 5,2 milhões de pessoas no Brasil estavam em estado de subalimentação. Em suma, passavam fome.  Atualmente, 44 milhões de brasileiros vivem com menos de R$ 22, por dia.
Há fome no Brasil. E ela é urgente.


 

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Sobre as eleições para o governo de Minas


Fernando Pimentel fez um governo ruim. A habilidade em crise faz parte de um bom governante. Fernando fez escolhas erradas.

A surpresa de Zema no segundo turno nos mostra a hipocrisia corrente daqueles que se esforçam para serem caracterizados como não políticos, gestores. O aceno de Romeu Zema ao candidato a presidência do PSL, o garantiu uma avalanche de votos de última hora, que ele próprio não esperava.
Seu partido, o "Novo", uma expressão míngua de programas neoliberais financiados por banqueiros e rentistas; expressou justamente o que critica com a veemência oca dos que se julgam senhores da moral.
Não só pela aliança suja, mas pela síntese de um projeto neoliberal entreguista, classicista e voltado a elite, considero Zema a pior opção para Minas. Seu programa de governo é desconexo, com adaptações comuns para uma aliança nacional, e perversamente elitista.

Com todas nossas diferenças, não tenho dúvida que Anastasia tem maior capacidade, e mesmo consciência, de realizar em Minas um governo eficiente.
A que se diga além, é um democrata.
Fato a se louvar em tempos de truculência de pensamento e autoritarismo marginal.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Ogum, São Jorge, o Amado e o da Capadócia


Ontem, 23 de abril, ilês, terreiros, casas de culto, tendas espíritas e tantas outras flores do jardim de fé brasileiro prestaram homenagens a Ogum e a seu sincrético católico São Jorge, o guerreiro.

São Jorge, soldado romano mártir da igreja, é lembrado pela icônica imagem do homem altivo, de capa escudo e lança, sobre um cavalo, a lutar contra um dragão.

Ogum, divindade de origem Iorubá, filho primogênito do rei de Ifé, Odùduà, tem sua força reconhecida pelo domínio da forja, do ferro, da audácia, da revolução e da virtude, e se emparelha a São Jorge na coragem em manter a retidão de seus valores, mesmo em face de grande ameaça.

“Iansã, cadê Ogum?
Foi pro mar...”

Os versos da canção de Romildo e Toninho, “A deusa dos orixás”, sucesso na voz da grande Clara Nunes, remetem à relação de Ogum e Iansã, ferro e tempestade, e da estreita ligação desse orixá com o mar.

O mar está para Ogum tal como o dragão está para São Jorge, na medida em que suas águas que desabrocham no infinito do horizonte eram para o povo nagô o lugar dos corajosos, dos valentes e desbravadores, dos conquistadores e audaciosos, daqueles que não temem e não se dão por vencidos.
Vejo em Guma e Pedro Bala, personagens do mestre Jorge Amado, a descrição do Ogum que vai além do arquétipo da espada; heróis destacados sim por sua valentia, mas sedutores por sua paixão e pela violência controlada pela ternura, pragmáticos e racionais, ainda que românticos; paradoxo dos mais belos.

Pensar em Ogum é ser remetido ao primeiro estereótipo, o do guerreiro de espada na mão. De minha parte, prefiro senti-lo como Jorge Amado traduziu, e imaginá-lo sacolejando ao sabor do mar sobre uma jangada, peito aberto, o mar adiante, a cabeça erguida, de quem respeita, mas não teme o desafio, e irá retornar ao seu porto, com suas redes cheias.

A Ogum, patakori Ogun! Onirê! Ogunhê! Salve o senhor de minha cabeça, rei de Irê! Salve sua força!

A São Jorge, viva Jorge!

À Lívia, com amor, Guma!

Axé!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

O fetiche na primeira e na nova Umbanda

2 -

A primeira Umbanda e o receio do fetiche
       A Umbanda são muitas. A matriz geradora dessa religião é a mistura, e como mistura, sem referência ortodoxa ou codificação, foi natural que se multiplicasse de maneira aleatória, criando ritos dentro do rito. Ainda assim, é possível apontar algumas características comuns que ao serem problematizadas ajudam a entender o processo de acolhimento de médiuns, bem como de frequentadores comuns.
       No caso do médium, já dissemos sobre as matrizes espirituais e o chamado da mediunidade, que lhe atribuem necessidade a ser saciada ali, em laço emotivo, simpático, não racional.  No que diz respeito ao frequentador paciente, costumeiramente chamado de “assistente” ou no todo de “assistência”, essa empatia emocional também é recorrente, embora menos intensa, e deambulando entre a esfera do fenômeno e do misticismo. 
        Resgatando processos rituais comuns as diversas Umbandas, vemos como essa roda se desenvolveu, e como hoje é viciosa. Já era uma preocupação dos mentores espirituais que conceberam essa religião desde a sua primeira sessão, por assim dizer. Nos relatos colhidos de Zélio Fernandino de Moraes, tido historicamente como o médium pelo qual se deu a abertura da primeira casa de Umbanda, vemos o cuidado demonstrado com a questão simbólica, bem como o temor de que o simbolismo exacerbado desviasse o trabalho pelo fetiche. Isso nos idos 1908, ano que em que se documenta a primeira sessão. 
       Na casa fundada por Zélio, os cânticos eram estritamente “acapella”, até as palmas eram restritas. Não havia imagens, os médiuns se colocavam de branco, e o uso de símbolos por eles era proibido. Pretos-velhos e caboclos eram os responsáveis pelos atendimentos, sendo linhas como a de Exú – por sua conotação à época – barradas, e relegadas a raríssimos eventos. 
       Manifestava-se através de Zélio a preocupação dos mentores com as paixões que o simbolismo alimenta, tendo como consequência a alienação. Essa preocupação aliada ao histórico de Zélio, de família Kardecista, fez nascer a Umbanda “branca”, uma matriz que hoje com extrema raridade se encontra.
          Os médiuns que procuravam a Umbanda Branca eram em geral aqueles que detinham mediunidades de fenômeno físico, especialmente a incorporação, e que não eram aceitos em outras rodas. Ali foram atraídos pela possibilidade de darem vazão a essas mediunidades, e pela afinidade com o método simples, sem demandas de conhecimento prévio; apenas compromisso e responsabilidade em relação aos horários e às ordens do seu regente. 
         O cenário propunha, em razão da origem diversificada dos médiuns, antagonismo em relação ao trabalho proposto pela primeira Umbanda. Isso de fato não chegou a acontecer de maneira expressiva, pois uma característica muito comum aos espíritos trabalhadores de Umbanda é sua adaptação ao meio, capítulo a parte a ser tratado mais adiante. 
         Por sua vez, a assistência que chegava até essa primeira Umbanda era atraída também pela simplicidade do processo, mas, sobretudo por sua oralidade, e pelo seu conteúdo fenomenológico. O apelo da Umbanda era popular, voltado para gente muito simples, sem educação formal, periféricas, que ali buscavam ajuda na esperança de cura, ou de conselho, de emprego, resolver-se amorosamente, de sofrimento, ajuda psicológica e todo tipo de dificuldade aos quais eram legadas. 
        A possibilidade de ajoelhar-se diante de um espírito, e ali obter de forma simples e direta a cura de uma enfermidade, era sem dúvida atraente. Não havia cobranças, nem em dinheiro, nem moral, tudo se fazia através de uma caridade cega, e por fenômenos físicos manifestos, claros, objetivos, encantadores.  

As novas umbandas e o fetiche ritual
          Tal como um feixe de luz que ao perpassar um prisma se decompõe em cores, a Primeira Umbanda (Branca) se decompôs em outras tantas, a partir do caráter dos que assumiram suas próprias casas de trabalho. A ausência de um livro codificador e a gênese mestiça do culto possibilitou que isso acontecesse, sem que se perdesse o selo umbandista. Com o passar dos anos, o número de casas cresceu exponencialmente, sendo todas tidas como de Umbanda, ainda que com características diferentes entre si.
        Dentro desse rol, podemos – a fim de entender de forma didática o processo - classificar essas casas de acordo com a proximidade maior com determinado tipo de culto gerador. Sabemos que a Umbanda teve como semente a mistura de três segmentos maiores. O Catolicismo, presente especialmente na figura dos santos católicos.  O Candomblé, esse figura importante em toda parte ritual, sendo base para o desenvolvimento das reuniões, e influência direta na forma de manifestação dos mentores. E o Espiritismo, que por sua vez veio a cargo com as leis espirituais, inicialmente tidas com esmero na Umbanda Branca. 
            Esses três formaram o tripé maior do que se chamou de Umbanda, sem ignorar que outras culturas menores, como os ritos ameríndios e o misticismo foram depois também sendo incorporados, formando uma matriz múltipla e extremamente simbólica.        Pensando apenas nos três principais pilares, podemos dizer que de acordo com a proximidade maior com um deles, as casas de Umbanda assumiram características próprias, que as diferenciam entre si.
          Chamaremos de Umbanda Branca aquela que mantém maior proximidade com os ensinamentos Kardecistas, conservando dentro de sua organização uma estrutura baseada nas disciplinas das mesas brancas. Às casas sob maior influência católica, chamaremos de Umbanda de Reis, sendo observado nestas o papel primordial do sincretismo, mantendo datas e rituais próximos à agenda Católica, com tons mais brandos de cânticos, e linhas de trabalho rígidas. E por fim, às casas com forte influência do Candomblé, chamaremos de Umbanda de Caboclo. Nessas, os ritmos são fortes, há a presença dos tambores rituais similares aos do Candomblé, bem como a forma de manifestação, com paramentos, símbolos, danças, comidas, o que se estende também ao trabalho em si. 
         Em capítulo oportuno, vamos pormenorizar essa divisão, sendo por hora importante apenas entender que, como característica comum, todas essas Umbandas são religiosamente cristãs. Além disso, é preciso saber que a finalidade da Umbanda, independente de sua linhagem – consideramos essa divisão como uma linhagem cultural assumida consciente ou inconscientemente – é a caridade, fundamento único de sua criação. Posteriormente a essas três linhagens que serão usadas como exemplo aqui, surgiu uma quarta, que atualmente está mais em voga que as demais, e em franco crescimento, a Umbanda Mística, sobre a qual debruçaremos mais tarde. 
         Cada uma dessas novas Umbandas desenvolveu seu culto sobre a perspectiva passional, tendo como referência o sentimento, sua verdade interior, aquilo que lhe aprazia e tocava o coração. Com isso, criaram fetiches próprios, que atraíam médiuns e visitantes, formando seu ciclo. Alguns desses artifícios são comuns, outros peculiares a cada linhagem.
         Uma pessoa que chega a Umbanda como visitante tem como primeiro diferencial a possibilidade de conversar diretamente com um espírito desencarnado, ali colocado como mentor, através de um processo mediúnico de incorporação. Esse processo é comum a todas as Umbandas, sendo possível dizer que o fenômeno da incorporação foi, e ainda é, o primeiro fator de diferenciação da Umbanda de demais religiões. Mesmo no Candomblé, onde a manifestação acontece de forma direta, não é possível se comunicar verbalmente com os espíritos ali manifestos, sendo resguardado apenas observar, cantar, aplaudir, e comungar de sua energia através das comidas e bebidas. 
        A incorporação é tão importante quanto perigosa. Sendo ela a via de trabalho mais comum dos templos de Umbanda, é natural que os médiuns que ali se colocam esperem fazer parte diretamente disso, enquanto a assistência espera respostas tão diretas quanto. O ciclo é vicioso, perigoso, e em determinados momentos cruel. Uma armadilha pronta para o erro. As pessoas estão ali pelo fenômeno, os médiuns ali para reproduzi-lo, sem o amparo de doutrina, a falha é recorrente. 
       Um segundo elemento ritual que age na captura emocional dos freqüentadores é a música. Como elemento cultural, a música tem em si um poder de penetração considerável na transmissão de mensagens. Na Umbanda, é o principal meio de educação, sendo as cantigas entoadas ao longo do culto carregadas de mensagens e sabedorias próprias da religião. 
         A partir do processo de diversificação da Umbanda, a música agregou outro valor, o de manutenção da expectativa dos assistentes, bem como a captura de sua atenção. Os ritmos quentes dos tambores na Umbanda de Caboclo, por exemplo, exploram a musicalidade da assistência e do corpo mediúnico, cativando-os a acompanharem os cânticos, e se interessarem pelo que acontece, mesmo que isso não necessariamente represente entender o que se está ouvindo e cantando. O fetiche da musicalidade das reuniões, que já em primeiro momento preocupava Zélio e os fundadores da nova seara, é uma realidade inquietante. 
        Não se nega o favorecimento que o ritmo tem em relação ao trabalho e seu desenvolvimento. Ao mesmo tempo, observam-se os ritmos e cânticos cada vez menos como parte litúrgica, e mais como atração. O discernimento correto de sua função, ainda que não obstante à alegria e explosão de sentimentos que provoca, faria parte de uma doutrina, da qual estamos aqui relatando ausente e necessária.
          No mesmo sentido que a música e a incorporação, um terceiro fator pode ser elencado como fetiche da Nova Umbanda. O simbolismo/misticismo exacerbado. O sincretismo já era uma realidade na Primeira Umbanda. A relação análoga entre santos católicos e deuses africanos era uma menção comum, embora não houvesse a exploração de imagens. Na Nova Umbanda, isso se modificou por completo, sendo característica dos terreiros a presença maciça em seus altares de imagens e símbolos generalistas. Essa massa simbólica está também na linguagem, nos ritos, no trabalho, no atendimento, na vestimenta, no comportamento dos médiuns e em tudo que os rodeia. 
         É sem dúvida fascinante o modo como isso se reúne em um único lugar, e como se convive com essa atmosfera de sagrado em cada detalhe, mas ao mesmo tempo é evidentemente um perigo. Qual a fronteira entre o sagrado e o mistificado? Na Umbanda, ela é tênue. O simbolismo em cada detalhe conquista e força a uma consciência ampliada e de vibração respeitosa. Mas ao fim, nota-se que esse instrumento de poder acaba por desviar o conteúdo verdadeiro do trabalho.
          A investigação dessas relações entre a Umbanda e aqueles que a ela alcançam é fundamental para a sustentação dessa religião. Quanto mais afastar de si a suspeição do espetáculo, mais fortificada em seu alicerce de caridade, amor e fé ela estará. Para tanto, educação, disciplina e doutrina devem ser pilares na formação do seu corpo, bem como na relação com os assistentes. Do contrário, a fantasia substitui a verdade e o espetáculo segue tentando a fé. 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Umbanda: mediunidade, acolhimento e iniciação

1 -

Sensibilidade à priori do verbo

        A mediunidade é uma esfera da potência humana, uma extensão de sua inteligência racional e emocional, que se desdobra sobre sua percepção do universo físico e além. É comum a todos, mas ferramenta primeira do médium, de maneira que está dedicada ao que ele determina, sendo primordial dizer que sua finalidade correta é a caridade. À cada um, distintamente, a mediunidade convoca, por um fenômeno ou por um acaso, que não coube explicação dentro do que até então se tinha sabido, e por assim dizer, desperta para uma nova gama da vida.
       Tão diversificadas quanto a cultura, as matrizes espirituais que definem a alma são responsáveis por apontar a direção do acolhimento espiritual a partir do despertar, aproximando o trabalhador do caminho mais afim.
        Os médiuns que se aproximam dá Umbanda, recebem esse chamado da mediunidade de forma essencialmente sensorial, respondendo a matrizes de apelo emocional, de natureza não racional, mas nem por isso menos intensa. Ao chegar à Umbanda, o médium entende e aceita seu caminho não pelo verbo, mas pelo arrepio.
       A explicação para esse método de acolhimento pode ser encontrada na origem dos cultos umbandistas. Já nos seus primeiros anos, instituindo-se como alternativa de trabalho espiritual, a Umbanda mostrou-se aberta e receptiva a médiuns das mais variadas nuances. As cobranças em termos de preparação, ciência e respaldo teórico eram deixadas de lado, a fim de abraçar os até então excluídos de esferas espirituais de cunho mais racional, baseadas em leituras e interpretações, tal como o espiritismo de Kardec.
      A Umbanda era o trabalho, e como trabalho, exigia apenas compromisso e verdade, sendo a verdade avaliada pelo fenômeno e sua intensidade. Ainda que esses parâmetros tenham sofrido mudanças ao longo do tempo, acabam por ainda ser a referência para a aceitação do médium no círculo de Umbanda e suas derivações.

Doutrina e sensibilidade, um desafio da nova Umbanda
          A mediunidade se tornou uma questão para mim aos nove anos. Pequenos fenômenos me aconteceram, e inquieto procurei entendê-los, primeiro sozinho, depois com a ajuda de mentores espirituais. Nessa época, vivia com minha avó, com quem passei tempos aprendendo coisas que não sabia o porquê. Ela foi a primeira a me chamar de “médium de berço”, conceito paradoxal, já que todos os médiuns são nascidos assim, mas que na Umbanda e afins significa um despertar prematuro da mediunidade.
      Minha avó era uma médium de fenômenos, filha de Iansã, explosiva, mas com sensibilidade aguçada e grande abertura mística. Aos nove, me falava de ervas para banhos, de orações, de magias antigas, chás curativos, simpatias, cristais e todo tipo de efeito elementar comum a esse universo umbandista. Curiosamente, apesar de discorrer sobre todos esses temas, nunca me falou propriamente sobre a Umbanda, e raramente citou entidades espirituais.
       Tia Maria era um exemplo do médium formado por sua “sensorialidade”, dentro dos domínios da Umbanda, mas lapidado pelo fenômeno e não pela razão. Para ela tudo se baseava na verdade do que sentia, e não nos desígnios dogmáticos da religião, até porque, o em se tratando de Umbanda, havia com ainda há dificuldade até de definição do gênese. A Umbanda era um lugar onde outrora trabalhou, mas que não necessariamente a continha.  Poderia, se quisesse, abrir para si uma tenda, e ali exercer atividades espirituais através de suas mediunidades, sem que fosse necessariamente classificada pelo que nos esforçamos a chamar de Umbanda.
        De certa forma, quando me educava na sabedoria dos elementos, sem me incitar ao domínio religioso, tentava me dizer que que tal sensibilidade vem à priori da religião, e sem dúvida, é o que se percebe hoje nas mais variadas casas umbandistas. A Umbanda quis que fosse assim, e hoje tenta lidar com as consequências desse método.
        Percebeu tardiamente que o trabalho espiritual era sim necessário, mas que os médiuns precisavam de doutrina, já que o império do sensível compreende com facilidade a farsa mística e moral. O conhecimento sobre si, o estudo e a racionalização de suas tarefas, esbarram na construção histórica de uma religião fenomenológica por natureza, de modo que tal conciliação é um dos grandes desafios que lhe aguardam.
      Lembro quando aos 11 anos repousei meus joelhos frente a uma sábia preta – velha, desejoso de iniciar minha trajetória na Umbanda em sua casa. Ela, muito carinhosa e ao mesmo tempo enérgica, disse que me aceitaria fazendo apenas duas exigências: responsabilidade e compromisso. Agregado a esses dois pilares fundamentais, a Umbanda hoje anseia também por doutrina. O discernimento do trabalho é tão importante quanto ele próprio, de maneira tal que só através do discernimento, estaria ela, Umbanda, também em compasso com a evolução.


Link para o artigo 2: http://bregaccc.blogspot.com.br/2017/01/o-fetiche-na-primeira-e-na-nova-umbanda.html?m=1

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O esporte brasileiro pós olimpíada

Há algum tempo manifesto crítica à organização do esporte brasileiro, disposto em sistema de federações arcaico e oligárquico, reduto de pessoas autoritárias que fizeram ali seu refúgio, a fim de se perpetuar no poder. A fraca gestão se observa na ineficiência da aplicação dos recursos; isso quando não se dissipam num limbo obscuro e impalpável. Apenas recentemente olhares mais crônicos se voltaram para essas instituições, e sem surpresa, acabaram por revelar esquemas de desvio e corrupção. A CBF é mãe-mestra dessas, esgoto que mancha o esporte futebol desde Havelange.
Voltando ao esporte. O que defendo como tese é que o problema fundamental do esporte brasileiro não está na falta de orçamento, mas especialmente na sua organização e planejamento. Desde os governos Lula e Dilma, com as bolsas para atletas, a estruturação do Ministério do Esporte e a alavancagem de parcerias e patrocínios, o aporte de investimento no esporte de alto rendimento aumentou consideravelmente, a níveis que impressionam em comparação com outros países. 
Dois exemplos comprovam o argumento que aqui coloco. A universidade americana de Stanford, sozinha, obteve 25 medalhas nas olimpíadas do Rio 2016. Seis a mais que o Brasil. Seguindo a linha, ao analisarmos o investimento feito no atletismo brasileiro, que nos deu apenas uma inesperada medalha nos jogos, observamos que este teve orçamento maior que o atletismo americano, da Jamaica ou do Quênia. Sim, gastamos mais que o atletismo dos Estados Unidos, e mais que o atletismo do Quênia e da Jamaica somados, sendo que todos estes obtiveram resultados expressivamente melhor que os do Brasil. Fica claro então que temos dinheiro para gastar, e gastamos muito, só que mal.
Tenho alma de atleta, apaixonado pelo esporte, e por isso, tenho certeza que os atletas de verdade reconhecerão que após o fraco desempenho de modalidades com alto investimento, como a natação e o atletismo, eles também devem ser cobrados. Mas essa é a ultima ponta, a cobrança é natural, mas não soluciona.
Imagino que inverter o pólo de investimento, trazendo recursos maiores para a base, aumentando a taxa de amostragem e massificando o esporte como pilar da descoberta de novos talentos, seja a principal revolução. Somos privilegiados por um biótipo e diversidade que podem contemplar quaisquer modalidades. 
Outra solução, que já vem apresentando resultado, é o fluxo de conhecimento de especialistas, com a contratação de profissionais estrangeiros com conhecimento técnico na área. O treinador de Thiago Braz, medalhista de ouro no salto com vara, é estrangeiro, e reconhecido como um dos grandes nomes do esporte. Essa troca de informação e experiência é extremamente benéfica, e também utilizada por outros países. O treinador da dupla italiana masculina de vôlei de praia, finalista nas olimpíadas, é brasileiro. Nada mais natural, já que nesse esporte somos expoente. 
Dedicar preocupação, engenho e investimento ao esporte nunca pode ser secundário. Os ícones criados pelo esporte são capazes de incentivar uma cultura positiva na sociedade, criando novas perspectivas de transformação social, ascensão e educação. Isso cria espaço para que novos “Isaquias’ desabrochem e mostrem seu valor. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

A remissão dos pecados e o "vale-consciência"


Há uma premissa de culpa no modo como vivemos. Ela nos compele à busca de remissão. Os pecados nas suas várias acepções e densidades travam os passos da consciência, que mesmo leviana, custa a se livrar de uma auto censura que incomoda e perturba. Nesse contexto, a religião se apresenta como forma de lavagem dessas cismas, um trajeto de libertação, pelo qual é possível se sentir livre para viver, quites com o sagrado e com a própria consciência.
 O discurso religioso perpassa a ideia da redenção como linha condutora da "re-ligação" do homem e do sagrado, de maneira tal que é intrínseco aos seus dogmas e ritos o trabalho a ser realizado para se ver livre de débitos morais. A ideia de remissão subentende uma conversão moral profunda, tal como uma correção de rota, no que tange a postura em relação à vida, a sociedade e aos atos que aqui se realizam em responsabilidade. Essa reformulação exige, daquele que se compromete religiosamente, dedicação proporcional aos débitos que pretende redimir. Religar-se com o sagrado torna-se aí tarefa não meramente protocolar, mas de revisão densa, tempo que nem todos estão dispostos a doar.
Qual a solução? Preciso me redimir, mas como é praxe na natureza humana, quero alcançar esse livramento da maneira mais simples possível, e com menor esforço. Como farei?
Entendendo a necessidade do homem de ser prático, a construção do discurso religioso dispõe brechas, para que através do cumprimento ritual se esteja em dia com o divino, livre da repreensão moral, ao mesmo tempo em que se resguarda tempo e vontade para outras dedicações menos nobres. A essas brechas chamo aqui de “vale – consciência”, presentes de forma variada em um apanhado considerável de religiões, muito embora em algumas, causem mais polêmica e estranheza que em outras.
Assumindo os cultos afro-brasileiros como um grande segmento religioso, observa-se com naturalidade como a substituição da remissão verdadeira pelos “vale – consciência” se desenvolve. Através do rito, na manipulação das ervas, de elementos da terra, e de toda a magia ali compreendida, é possível por meio de um banho de folhas estar em sintonia com o sagrado, e assim quites com suas obrigações. É rotineiro que se visitem templos de culto afro-brasileiro em busca de uma solução rápida para suas contendas, de um estalar de dedos que faça com que tudo aconteça, ou de um amuleto que livre do mal e de suas perseguições.
A praticidade da oferta gera demanda, numa lógica que flerta sempre com a do mercado. O comércio de “vale – consciência” é uma realidade, vívida e regente. Há quem assuma esse comércio de forma declarada, quem cobre valores materiais para satisfazer a necessidade de outrem em ter seus problemas resolvidos, ou sua consciência aliviada. Há quem o faça de forma velada, mas ainda assim nítida. Não seria a oferenda na casa de santo ao orixá guardião uma forma de ter parte dos débitos quitados? Não seria o amuleto comercializado, mesmo a baixo custo, na Umbanda, um modo de oferecer de forma prática, alívio aos mal feitos? A religião atende ao homem naquilo que ele mesmo requer. E por assim dizer, não há culpa nela, e sim na maneira como a vemos.
Nos templos protestantes, causa indignação a alguns a forma como a circulação de dinheiro e bens norteiam o compromisso com o sagrado. A verdade, é que tal como os ritos nas casas de santo, ou terreiros de Umbanda, aqui também se encontra apenas um meio de ter os pecados redimidos de forma prática e indolor. Se doando ao meu templo compromissos financeiros mensais me mantenho em dia com Deus e com meus pecados, por que não? Afinal, é apenas dinheiro, e não há nada mais prático que ele.
É, portanto, incompreensível ter para com esta prática menor consideração, ou mesmo destiná-la de prévio à corrupção. A corrupção que envolve ou não a administração dessas quantias não serve de justificativa para desqualificá-las, uma vez que são apenas a reprodução da vontade humana de conforto, facilidade e menor esforço.
É bom que se diga que esse mesmo grosso religioso oferece em seu cerne meios reais para assimilação da verdadeira redenção, da conversão moral e da vida honesta. Os ritos ou métodos apenas aparecem como paliativos ou introduções a um caminho de vida em comunhão com o divino. Não há redenção moral sem esforço verdadeiro, sem lapidação incessante, encarando a si mesmo em suas chagas, ainda que doa.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Velho Chico: primeiras impressões


    Escrever uma novela é, sobretudo, administrar o silêncio. Não apenas o silêncio literal, mas a sugestão metafórica da elipse, no enredo, na imagem que se vê e a que se imagina, no jogo de esconde que faz a história acontecer nos seus detalhes, dentro da cabeça de quem assiste. Primeiro capítulo de Velho Chico, novela de Benedito Ruy Barbosa, da qual comentei aguardar com certa ansiedade pela sugestão das chamadas; e já me conquistou.
       Nada de diálogos agônicos de personagens consigo mesmo, tentando preencher explicativamente o enredo na mente da audiência. Nada de falas sem propósito, ou da linearidade chata de imagens contextuais. Tudo conciso, indicativo, sugestivo, sedutor. A história não está entregue, mas as iscas certas lançadas. Parece exagero dizer apenas com o primeiro capítulo, mas o fato é que diante de outras produções do mesmo gênero, isto é inédito e empolgante.
        A fotografia é um ponto alto. Lindíssima! O sertão amarelo, mas com tons vivos, turquesa, azul, vermelho, margeados por verdes salpicados. É seco e vivo. É desigual. É pobre e é rico. Tal como o Brasil dos coronéis. A contraluz dá a ideia de sofreguidão e nostalgia da casa do Coronel. A luz direta que irrita os olhos do personagem de Chico Diaz transmite a luta para sobreviver no semi-árido.
         A trilha é fundamental. Abre com Tropicália, música de Caetano, que nos conduz a história e enche de expectativa, escolha perfeita para representar a época. Chama atenção a trilha incidental que acompanha todas as cenas, sem exceção, no silêncio e nas falas, também uma novidade. De certa forma, me pareceu exagerada, o que não quer dizer que tenha sido mal feita, pelo contrário.  Como dois e dois merece parêntesis pela empatia com a personagem, e por nos lembrar que ninguém faz música como Caetano.
           Textos são como perfumes que reagem à pele, e só depois ganham vida. A pele, nesse caso, são os atores, que são quem de fato fazem tudo acontecer. Esse é um tópico que carece mais tempo para ser avaliado, mas de pronto, tudo pareceu se encaixar.

Espero não ser iludido. Acho que dessa vez acertaram.  

sábado, 12 de março de 2016

Sobre amizade: aos amigos com carinho

Durante boa parte da infância morei com minha avó, apreciadora de música, especialmente brasileira e popular. Era tradicional, especialmente aos domingos, ouvir Agepê e sua voz encorpada, e em seguida Gonzagão e seu baião, ao som do qual, inclusive, ela fazia questão de me dar aulas de forró. Os sons daqueles vinis preencheram minha ideia de música durante a tenra infância, período em que as fitas cassete foram engolidas pelos CDs, caros, e de difícil acesso. 
Lembro com frescor o primeiro fim de semana que passei na casa do meu além-amigo Loureiro. Ainda era infância, e entre as coisas novas que ele me apresentava em sua casa, fez questão que eu ouvisse a banda inglesa Led Zeppelin. Era tão diferente! No começo estranho, como se aquilo não se encaixasse no meu ouvido. Foi assentando aos poucos, até que ouvi Since I’ve been loving you, e as descobertas se multiplicaram. Era lindo! Forte, denso, melancólico, ainda que eu não entendesse mais do que o título da canção. As descobertas se sucederam (The Doors, The Who, Pink Floyd, entre outros) estendendo meus horizontes. Em dias que a alma grita: Led! Em dias que o coração lembra: Cartola! Tudo teve e tem uso em mim.
Conto essa história, porque a vejo como uma metáfora (pessoal) para o valor e a função da amizade. Duas almas que se cruzam e colaboram entre si, de tal maneira que não se possa falar de quem uma é sem mencionar a outra. Tornam-se causa e efeito, mutuamente, de personalidades que descrevem destinos sempre na direção do bem. 
É uma bênção! E deve ser louvado assim. Quem seria eu no mundo sem amigos? O que a vida teria feito de mim e o que eu devolveria a ela? A amizade é uma verdade transcendente, um bálsamo da alma, um pão da vida. 
 A todos os meus amigos, com orgulho de usar o plural, a gratidão sincera de quem vos ama. 

PS: aos dois - Semper Fidelis. Obrigado!

domingo, 24 de janeiro de 2016

Dois heróis e o triunfo da inteligência


        A despeito do marketing, publicidade e poder financeiro, o talento, o diferente, o exímio, continua a ser a forma mais eficaz de se angariar fãs e promover um esporte. O fetiche que envolve a aura do genial é de fascínio contagioso, capaz de transformar aquele que por vezes ignora as minúcias de um jogo em fiel seguidor, dando início ali a uma nova paixão. 
        A final da conferência americana no próximo domingo, entre Broncos e Patriots, é uma ode a dois personagens que sintetizam a potência fascinante do gênio. Tom Brady e Peyton Manning, “QBs” de Patriots e Broncos, já se enfrentaram 16 vezes, com vantagem para Brady de 11 vitórias. Este décimo sétimo encontro pode ser o derradeiro, o que traz à partida uma carga histórica substancial.
          Voltando ao ano 2000, seria impossível prever essa rivalidade e sua importância para o esporte. Ao pé da letra, aconteceu e só! Bem como são as coisas magnânimas. Manning desde a faculdade tinha um futuro brilhante anunciado. Foi a primeira escolha do draft de 1998 pelos Colts, considerado desde antes um dos maiores prospectos da história da liga. Dois anos depois, na lista dos passiveis de escolha, Brady era apenas um patinho feio. Foi escolhido apenas na 6ª rodada, a de número 299 pelos Patriots, que queria um reserva. Sua baixa popularidade no draft era fruto da sua avaliação física, abaixo dos demais. Era lento, pouco ágil, um “QB” que precisaria de um jogo específico, e que nem todos estavam dispostos a apostar. Estava assim, fadado a reserva, sem muita esperança.
        Numa reviravolta do destino, ganhou uma chance com a contusão do titular, e a aproveitou de maneira brilhante, não saindo mais do time. Inteligente e habilidoso nos passes, convenceu o técnico a formar um esquema que lhe favorecesse, surgindo daí uma química que continua fazendo história. De anti-herói, tornou-se o homem a ser batido, o que levou a inevitável comparação com Manning, outro gênio da posição. As discussões sobre quem era melhor, e os confrontos anuais, movimentaram fãs ao redor do mundo. Manning versus Brady tornou-se uma competição a parte, sem precedentes na NFL.
         Ironia, o corpo desajeitado e lento de Brady mostrou-se mais resistente aos anos, dando a ele condição de manter seu nível formidável. Já o de Peyton Manning sofre com o desgaste, parecendo admitir não estar mais disposto aos esforços e rotinas de um esporte muito físico. Essa disparidade física faz com que alguns classifiquem esse último confronto como um Davi contra Golias, o que na frieza das análises, pode encontrar respaldo. Mas na verdade não!
         Não há mocinho e vilão, nem herói e anti-herói quando se trata desses dois personagens. O destino construiu na união de ambos uma entidade única, como se representassem, ainda que de origens distintas, uma escola que ficará órfã quando deixarem o campo. Representam o triunfo da inteligência e astúcia em um jogo construído sobre a potência física. Brady-Manning vencem não pela força de seus braços, ou velocidade de suas pernas, mas porque são capazes de ler e ver nos segundos que antecedem um "snap" o futuro de uma jogada, quase como videntes.
         Isso é mágico, impressionante, e único. No próximo domingo, apreciaremos esse talento em campo por uma última vez. O desejo é de que seja histórico a altura de ambos. E que independente de quem seja o vencedor, o som seja de aplausos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Família, ancestralidade, legado e o engenho da alma


A família é o engenho da alma. Tal como um tecido raro fiado em roca de gerações. Uma soma das virtudes e dos desvios de cada um, formando a luz que endossa a pele. Minha alma é minha família, meu povo, meu sangue. Desde sempre, desde antes. Até hoje, até nunca. 
Família é mais do que se conta, é ancestralidade. Um valor tão insolúvel e inegável, que é base das mais ricas tradições de fé, aqui fecundadas na terra. Lembro e cito o Candomblé. Diversificado no rito e nas origens, mas comumente sustentado pela força da ancestralidade. Da forma oral de trânsito do conhecimento, aos seus deuses que guardam, zelam e vigiam. Tudo construído sobre a esteira do tempo, entre a sabedoria dos mais antigos, e a energia dos mais moços, cada qual com sua responsabilidade. 
 Nessa relação, aos donos da sabedoria cabe guiar os jovens, educar-lhes o ímpeto, e mostrar-lhes a direção. Aos moços sustentar a bandeira, receber com carinho o legado, e transmiti-lo com orgulho. Dessa forma, cada qual cumprindo seu papel, se constrói a árvore da família, dos ancestrais, o “de onde viemos” com olhar no “para onde vamos”.
Cada uma em sua época, e nunca fora dela, as folhas esmaecem e recaem ao solo, para recomeçar. Outras novas e tenras nascem ao longo dos galhos, e a vida segue. A roca do tempo não para. O legado fica, com suas memórias e sabedorias, a serem levadas adiante. E assim, geração a geração, nos fazemos história, assim nos fazemos vida. 





Ps: Esse texto é dedicado a memória de Miraci Pantaleão, Tia Mira, mimo de Oxum, carinho de Oxóssi, afilhada da Jurema, meu sangue, meu povo, minha família, agora folha nova, verde e tenra nas cidades do céu. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

O que é o futebol?

O futebol é técnica. É! Não “era”. É! Esqueçam essa de futebol moderno, todo mundo marca, intensidade, jogador importante taticamente, atacante que acompanha lateral, jogador carregador de piano e outras balelas mais. Subterfúgios, nada mais, para justificar a ausência de intimidade com a bola. Intimidade que às vezes vem de berço, aos cuidados do talento, mas que se pode adquirir com esforço e repetição, através da técnica. 
Talento é uma aptidão inata, um presente, uma dádiva, quem sabe uma missão. Em termos de futebol, a capacidade natural de ser irônico com os pés. Pode ser lapidado, mas não pode e não deve ser domado. Meu primo Haroldinho, com 15 anos, chutava a bola para o alto, em altura de ganhar o leitão, e depois a matava no peito, como se ali houvesse uma almofada. A bichinha rolava e caia macia no chão, não sem que antes ele dissesse a mim “vem pegar”, me aplicando um rolinho na sequência. Ninguém o ensinou. Nasceu sabendo. Fazia aquilo com a naturalidade de quem respira, anda ou fala. No final da brincadeira, chegava até mim e paciente tentava me explicar como fazer. “Não fica com medo da bola, relaxa o corpo quando ela chegar a você, como se você fosse um colchão, não uma parede”. Eu não tinha e não tenho talento, e ele se esforçava para me ensinar a técnica. 
Uma vez, assistindo a uma reportagem sobre Elias, volante da seleção, ouvi o depoimento de um antigo técnico do jogador, na várzea, dizendo o porquê de ter dado a ele uma chance. Ele disse que havia ido acompanhar um campeonato amador. O campo era de terra, esburacado, ruim. O jogo estava nas mesmas condições do campo, e ele já ia desistindo, quando o treinador de um dos times fez uma substituição e colocou Elias no campo. Franzino, magro, pequeno para a idade. Na primeira bola, o zagueiro adversário deu um balão para o alto fazendo a bola parar no meio campo. Elias estava por ali e o adversário se preparou para ganhar de cabeça. Quando a bola chegou, Elias não pulou, deu um passo para trás, matou a bola na ponta da chuteira, fez o giro e carregou para o ataque. O olheiro então disse: “ali eu vi um jogador”. É isso! Isso é um jogador! Técnica!
 Enfim, descrevo isso para dizer que a qualidade com a bola ainda sobrepuja qualquer outra característica que possam ter atribuído ao esporte. O segundo gol do Peru, na disputa pelo terceiro lugar da Copa América contra o Paraguai, foi uma pintura. Carrillo, camisa 18 do Peru, dominou uma bola parecida com a descrição de Elias, e ali, naquele domínio, e se não fosse aquele domínio, não haveria o gol. O giro, a fila, a velocidade, o passe correto na abertura na ponta, o gol de Guerrero. Tudo a mercê da técnica, e por isso, tão bonito. Bonito como deve ser o futebol e a sua essência. Bonito como era ver Haroldinho e seu talento natural. Saudade desse futebol! Saudade Haroldinho!

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Mar

Ontem sonhei com alguém que não vejo há tempos. O Mar. Tava lá azul, e eu parei para saudar. Coisa estranha acontece quando a gente para pra admirar o Mar. A gente fica ali, deslumbrando a imensidão, e acaba perdido dentro de si mesmo. Senta e fica esquadrinhando o azul que não chega, e ao mesmo tempo fica remoendo lembranças, mastigando momentos, atropelando emoções. O Mar. Depois de muito pensar, cheguei a conclusão de que o Mar é bonito, e só. É bonito, e pronto. É bonito, e chega. Coisa linda é o Mar. Quando penso em Deus, penso no Mar. O que mais pode chegar perto da caricatura de Deus? Nada. Tanta força, tanto poder. As ondas lambendo a praia e chiando. Bufando. Parece um meninão deitado, relaxando, brincando de respirar fundo. O Mar. Se pudesse descobria ele. Desvendava sua magia, revirava seu fundo, os mistérios do seu Aioka. Mas nada. Por hora descubro a mim mesmo, me reviro me conheço. Saudade do Mar.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Resenha crítica do livro Cidade dos Espíritos: o dilema entre vender e informar

Há na cena literária contemporânea um efervescente caminho no qual estão inseridos os livros de temática espírita; com destaque aos romances mediúnicos. A denominação “romance mediúnico” surge como tentativa de esclarecer a peculiaridade de concepção de tais livros. São textos escritos por mãos que não as do autor. A compreensão de tal sugestão só é possível através de prévia introdução aos conceitos espíritas, especialmente os que tangem a comunicação espiritual. Embora o esforço de diferenciação seja justificável, o termo em si, “romance mediúnico”, não encontra sustentação. Um romance é uma narrativa em prosa, com base realista, acerca de ações múltiplas de personagens.   
         Trata-se, então, de uma construção do real, com referências no mesmo, mas sem compromisso verídico, apenas verossímil. O que se observa, em boa parte dos recentes lançamentos do “gênero” mediúnico, são relatos não ficcionais; narrativas que se afirmam espelho de uma realidade pós-túmulo, a exemplo do que seria o trabalho jornalístico. O principal objetivo destes textos é transmitir aos encarnados lições do mundo espiritual. Nesse sentido, ter os pés fincados na realidade, deixando claro não haver construção de qualquer espécie, transmite credibilidade, fator relevante, uma vez que os livros são, sobretudo, referência para estudos espíritas. Ponderando esta característica, e considerando tais relatos como jornalísticos, sem compromisso poético, literário ou requintes linguísticos, não são, portanto, romances.

Cidade dos Espíritos
         A leitura de Cidade dos Espíritos, livro psicografado pelo médium Robson Pinheiro, e atribuído ao espírito Ângelo Inácio, serve de exemplo ao exposto.  A obra é responsabilidade da Casa dos Espíritos, editora associada à Sociedade Espírita Everilda Batista, detentora dos direitos autorais dos livros publicados por Robson. Logo na capa, os dizeres “romance mediúnico” dão o tom do conteúdo que irá ser apresentado. O livro trata da chegada do espírito Ângelo Inácio em uma cidade espiritual denominada Aruanda, relatando, em primeira pessoa, a trajetória desse espírito, desde o desencarne até a noção da missão que lhe seria atribuída na dita cidade espiritual. Ao longo dessa trajetória, Ângelo Inácio registra suas observações. A proposta de enredo não é das mais complexas, mas encontrou no seu desenvolvimento diversos problemas de caráter linguístico, bem como outros em relação à sua concepção.

Aspecto gráfico
          Já no aspecto gráfico a obra chama atenção. São 459 páginas, ignorando-se cinco folhas sem numeração, e o índice. O grande número de páginas sugere uma narrativa detalhista e de nuances múltiplas, o que não se comprovou na leitura. A diagramação também exige olhar atento. Há requinte e cuidado na apresentação visual, com detalhes como manuscritos do texto original nas contracapas, e um jogo de cores entre o verde e o preto de bastante destaque. Certamente um livro que conquista o olhar nas prateleiras de livrarias, razão que pode explicar o esmero gráfico.   
           Cada capítulo inicia com uma página em preto para o número da seção correspondente, e outra para o título da mesma. Na página seguinte, uma letra capitular ocupa toda a dimensão da folha. Os recursos têm função duvidosa. Na verdade, beiram o mau gosto, e contrastam com a seriedade que o próprio livro exige de seus leitores.
          Nas últimas páginas, pós-narrativa, a obra traz um breve perfil do médium Robson Pinheiro, a quem chama de “autor”. A ideia de que Robson seria o autor dos livros nega o princípio de que os mesmos são fruto do fenômeno psicográfico. De fato, autor é aquele que compõe a narrativa de seu próprio intelecto, papel correspondente ao do dito espírito Ângelo Inácio. A apresentação do perfil de Robson está relacionada ao apelo publicitário em torno de sua figura, algo também observado em outros momentos de Cidade dos Espíritos, quando do uso de auto-citações e auto-referências, estratégias que visam à divulgação de seus livros. 
          

Ângelo Inácio
           A figura de Ângelo Inácio é central em todo o livro. Uma primeira análise sobre o protagonista já intriga. Trata-se de um jornalista e escritor, que preferiu preservar sua verdadeira identidade. Ao longo do livro, vê-se que nomes de personalidades terrenas são revelados sem pudor, e na maioria das vezes sem cuidado de apresentação. Por que se preservar e expor os outros?  
           A função de repórter lhe serve como caricatura, e a todo instante Ângelo parece desenhar no texto a personalidade tida como estereótipo desta profissão. Apresenta-se debochado, de fala solta, irônico, fazendo anedotas e cheio de perguntas. Demonstra uma vontade de se despir do caráter célebre de outros livros de temática espírita, tentando parecer mais “humano” que divino, muito embora seja piegas.
           Em vários momentos, a personalidade idealizada de Inácio se mostra sem função, perdida em meio ao conteúdo. Diz algo sem nexo e de fraco apelo cômico, e em seguida descreve uma mensagem altamente cerebral e densa. Sua própria maneira de se expressar reflete esta incoerência.
          Suas falas são confusas, mesclando palavras coloquiais com outras de raro uso. Quer ser irreverente, mas não consegue, amarrado que está na ideia de transmitir “verdades” através da narrativa. Suas piadas são fracas e sem inspiração, e a tradução de seus sentimentos não comove ou inspira. Enfim, o personagem Inácio não conquista e não interessa; em momentos parece tolo, em outros parece contemplativo, e nos demais apenas serve como deixa para falas consistentes de outros personagens.
           Sua interação com outros agentes da história é estranha e mal explicada. No enredo, após o desencarne, Ângelo é convocado à Aruanda na qual toma conhecimento de uma tarefa que espíritos de alto grau têm para ele. Sua escolha se deve a sua experiência terrena enquanto escritor e jornalista. Mas quem é ele? Quais são suas verdadeiras experiências? A figura da filha, Maria, aparece como um laço sentimental, que tenta exercer este papel de âncora da história de Ângelo, mas é fraco, quase imperceptível. Como crer em um personagem que não se conhece, e não é apresentado? Impossível. Talvez por isso não tenha apelo.
           Entende-se que o livro é uma espécie de continuação de outros do mesmo autor, e que, portanto, outras de suas obras apresentem mais informações a seu respeito. Ao mesmo tempo, o fato de Cidade dos Espíritos se tratar do início da trajetória espiritual do protagonista “Ângelo Inácio”, exige que tal personagem seja construído e apresentado, se não logo nos primeiros capítulos, no decorrer da narrativa. Do contrário, teríamos um livro de ninguém, narrado por ninguém. Um escritor ou jornalista – e sem dúvida um jornalista – saberia disso.

     
 Robson Pinheiro
           Exercendo o papel de intermediário entre a mente geradora do texto e o registro físico, poderia se imaginar que a figura de Robson estivesse inerte ao longo do livro. Não é o que se verifica. O texto traz diversas inserções sobre o médium, situações nas quais não é apresentado, ao mesmo tempo em que se faz questão de destacar sua figura, e mesmo traços de sua personalidade. Acaba ele, Robson Pinheiro, tornando-se mais um personagem do livro. Não chega a ser determinante para a avaliação do mesmo, mas causa estranheza.
         O principio básico da comunicação mediúnica é não interferir na mensagem. Ter inserido Robson no contexto da história, sem uma função, ou papel dedicado ao entendimento do enredo, soa narcísico, cabendo entender se a atitude partiu do médium, ou do autor da mensagem; imaginando tratarem-se de pessoas diferentes. 
                    
  Narrativa e conteúdo
            O autor propõe um relato sobre suas experiências no plano espiritual, utilizando-se de linguagem por vezes coloquial, em uma tentativa de amenizar o tom grave que os discursos de temática espírita assumem, quando tratam das perspectivas do comportamento e das diretrizes do além. Traduzindo a intenção do autor de maneira alegórica, seria como se um “humano” quisesse contar como são as coisas do outro lado da vida.
            Ao longo do livro, essa tentativa de discurso se trai, denunciando incoerência e falta de habilidade do autor em conciliar a seriedade do conteúdo proposto, com sua expectativa de diálogo leve e irreverente com o leitor. Em vários momentos do texto, a junção desses dois aspectos se mostra incompatível, ou pelo menos mal feita. São piadas ou brincadeiras superficiais e sem gancho, seguidas de páginas inteiras de falas rebuscadas a respeito de conceitos densos.
           O primeiro capítulo, especialmente seu início, serve de exemplo. O enredo começa com Ângelo Inácio em seu próprio velório, percebendo-se fora do corpo, e lidando em tom jocoso com a situação, ao observar parentes e amigos a sua volta. A cena lembra a novela “A morte e a morte de Quincas Berro D’água”, de Jorge Amado. Em uma parte deste célebre romancete, Quincas, personagem principal, brinca com a situação de ter seu corpo velado pela família e pelos amigos de farra e vagabundagem. Trata-se de uma cena clichê, que o próprio Amado, em outros de seus romances do realismo fantástico, reutiliza.
           Voltando à Cidade dos Espíritos, a cena inicial é interrompida pela chegada de Jamar, descrito pelo autor como um guardião. Jamar pretende levar o espírito de Ângelo até Aruanda. No que diz respeito à narrativa, a cena exemplifica o impasse entre humor e severidade, representados pelo posicionamento de Inácio e Jamar ao longo da cena. As dificuldades do autor são nítidas em lidar com a situação, e consequentemente foram repassadas ao texto, tornando a leitura difícil.
         Livros com a prerrogativa espírita, como Cidade dos Espíritos, lidam com uma dificuldade a mais na sua concepção, que diz respeito ao conteúdo de suas histórias. Este não pode trair os preceitos da doutrina, e deve estar sempre de acordo com as codificações de Kardec. Por isso, ao se observar o conteúdo de Cidade dos Espíritos, é possível, por exemplo, questionar itens como a transição do espírito Inácio.
            Um espírito do qual não se conhece o passado, e que demonstra ignorância acerca dos domínios do bem e da espiritualidade, além de hábitos pejorativos, simplesmente “sair” do corpo físico direto para uma cidade espiritual de tamanha evolução, como descrito no livro, soa estranho e incoerente.
           Ainda sobre a narrativa, outros aspectos complicam a leitura da obra em questão, tornando-a truncada e cansativa. Há uma preocupação excessiva do autor em descrever todos os detalhes por ele observados. Dessas observações detalhistas, paradoxalmente, a maioria não colabora para a construção do cenário da história. O que realmente fazem é tornar o texto inchado, repetitivo, colaborando para o desvio de rota da linha guia do enredo. Como exemplo, cita-se as vestimentas dos personagens. São descritos com detalhes todas as roupas e paramentos dos diversos personagens, com tal afinco e minimalismo, que causa estranheza e leva a se questionar com qual finalidade.
           Mesmo pela ótica do conteúdo espiritual tal postura não vê lastro. Pouco importa a roupa que um espírito “utiliza” na erraticidade; há outros pontos deveras mais relevantes a serem observados. Existem sim aspectos culturais implícitos no que diz respeito à vestimenta de um ou outro espírito descrito no texto, ainda sim parece ter a cultura tomado proporções a quem das que lhe são peculiares no contexto espiritual.
          Outro exemplo está em determinada passagem da narrativa na qual Inácio narra como passou horas escolhendo uma roupa nas lojas disponíveis de Aruanda. A passagem é desnecessária, chata, cansativa e desconexa, tanto que uma pergunta paira imperativa: Por quê? Se a evolução passa pelo desapego, não seria a primeira lição a se ensinar a um espírito, a quem se destinará missão dita tão importante, livrar-se de amarra tão mesquinha quanto “qual roupa eu usarei”?
         O que se observa na leitura de Cidade dos Espíritos são problemas narrativos sucessivos. Frases mal construídas, texto emperrado, de difícil leitura, poeticamente pobre, cansativo e sem fluxo. É comum ver dificuldades semelhantes em outros “romances espíritas”, já que na maioria dos casos, os espíritos que ali se comunicam não são escritores, e preocupam-se em transmitir uma mensagem verídica e densa em conteúdo, e nem tanto com qualidade estética.
          Os livros de André Luiz, através do médium Chico Xavier, são exemplo. Ricos em conteúdo, os livros têm como característica uma linguagem rebuscada que dificulta a leitura. André foi médico, sua mensagem é rica, mas seu texto é técnico e formal. No caso de Ângelo Inácio, tratando-se de escritor e jornalista, esperava-se uma evolução narrativa, o que parece não ter ocorrido, ainda que se verifique um esforço nesse sentido.    
           
  Verdades ou mentiras?
           Avaliar uma mensagem espiritual como a de Cidade dos Espíritos sempre é missão delicada e ingrata. Não se quer colocar em dúvida os dons espirituais de Robson Pinheiro, nem tão pouco a credibilidade do trabalho que realiza junto ao espírito Ângelo Inácio. Ainda sim, o conteúdo trazido por Cidade dos Espíritos suscita diversas indagações.
          São extraterrestres interferindo diretamente na política mundial. Guardiões de Aruanda travando luta intensa com espíritos mal intencionados durante a Guerra do Golfo, 1992, a qual se credita justamente a tais influências. Tudo acompanhado de perto por um espírito recém chegado, a quem é dada a missão de se preparar por 10 anos até realizar a tarefa de narrar o que viu. Isso aliado a diversos conteúdos polêmicos sobre a umbanda e o candomblé, que parecem serem ditos por quem não os conhece de fato. São várias as descrições que causam inquietação ao olhar atento.
          Ao longo do texto, o autor ressalta o caráter inovador das informações ali trazidas, dizendo ser o conteúdo de compreensão restrita, uma vez que nem todos estão preparados para entendê-lo. Defender-se atrás de tal argumento faz com que toda e qualquer afirmação seja possível. O que eu digo é a verdade e se não acredita é porque não está preparado para aceitá-la. Para um texto que propõe de forma tão direta e confiante visões diferenciadas sobre o mundo espiritual é preciso mais que esse argumento para gerar credibilidade.
           Narrativamente os problemas se acumulam. A falta de conectivos entre as passagens resulta em um texto sem amarras, sem liga. Há valor, e não se discute a iniciativa e boa intenção envolvida na confecção da obra. Mas é preciso se avaliar com cuidado as produções que se destinam a verdade, como as de cunho espiritual. Assumir a voz da espiritualidade exige muita responsabilidade. Os livros de Robson (ou de Inácio) são fenômenos de venda, brecha interessante para a divulgação benéfica de conceitos tão bonitos relativos à vida. Mas isso não pode ser feito a qualquer custo, nem tão pouco de qualquer maneira.

         

            

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

E quando se sabe o final? O suspense e a ausência dele

Umas das principais queixas de quem assisti a jogos de futebol em bares são os ouvintes de radinho. Uma questão técnica faz com que o sinal do rádio seja mais rápido que o das TV’s, em especial as que recebem imagens via satélite, fazendo com que o indivíduo sintonizado nas rádios antecipe em até quinze segundos o resultado de uma jogada na televisão. O caso é tão grave que alguns bares proíbem que seus clientes ouçam as narrações via rádio, enquanto estiverem no bar.
Em um jogo de futebol, a natureza tensa dos acontecimentos e sua imprevisibilidade garantem um ardiloso meio de sedução do espectador, definido por uma palavra, suspense. A irritação de quem assiste a um jogo pela TV, e é surpreendido com a antecipação do que irá acontecer, tem origem na quebra desse vínculo. O prazer de acompanhar um lance e vê-lo se desenvolver, cheio de expectativa de que ele resulte em um gol, uma defesa, ou momento capital é o que mantém o sujeito preso frente à televisão. Desvelar antecipadamente esse mistério faz com que o contexto perca a graça, tal como alguém a quem se conta o final do filme prestes a assistir.
Como dito, pela natureza do jogo, a ansiedade prazerosa do suspense está garantida, em maior ou menor intensidade, de acordo com o envolvimento de cada um ao momento. Nas narrativas culturais, o suspense aparece de maneira diferente. Mostra-se, nesses casos, como estratégia, cuidadosamente arquitetada, que tende a magnetizar o espectador a uma história, aprisioná-lo em uma redoma na qual seu olhar se crava ansioso pela próxima linha, ou pela próxima cena, na angústia de querer saber.
O suspense como estratégia é tão eficiente, que sua especialidade deu origem a um gênero, amplamente explorado no cinema e demais produções audiovisuais. Um filme de suspense é como uma sala escura na qual se entra pela primeira vez, e sem enxergar nada a frente, se tateia, a fim de desvendar coisas e caminhos. A tensão em cada passo no breu da sala traduz a sensação de quem se deleita com as cenas de um filme desse gênero, tanto em relação às emoções como das manifestações físicas, das mãos suadas e do frio na barriga.
O reiterado uso do suspense como instrumento vem a reboque de outras costumeiras táticas utilizadas nas tramas para cinema e TV. Fugir do óbvio é um esforço hercúleo, já que há uma lógica densa envolvendo e coagindo o ser produtivo. O mercado drena criatividade e rotula produtos, é sua maneira de agir, seu carma na terra, e contra isso não há argumento. Existem infindas maneiras de contar uma história, mas só algumas vendem, e vender é preciso. Fica difícil questionar a mesmice de um enredo, quando este é abraçado pelo público, que o sustenta e estimula.
Cito o caso das novelas brasileiras. Se no cinema a sedução se dá em boa parte pelo suspense, nas novelas se desenvolve de outro modo. Entender esse “modo” não se dará por hora. Exige uma dedicação intensa de estudos de recepção, de tal forma que se possa responder a uma pergunta capciosa: por que as pessoas ainda assistem a uma novela?
O primeiro capítulo de uma telenovela é o resumo de toda sua trama. É possível prever cada passo dos personagens, com raros momentos de surpresa. “Quem matou Odete Roitman?” dizia um bordão criado para a novela Vale Tudo, de 1988, da TV Globo. Descobrir quem teria sido o assassino da personagem era o grande mote da história; garantiu um mistério que cativou a audiência e a fez sucesso nacional. O modelo virou clichê, e ainda hoje quando querem introduzir suspense a uma trama novelesca, constroem uma cena de crime oculto.
A mesmice rotineira e sem graça poderia indicar uma decadência desse gênero, mas não, o fôlego continua. Do mesmo modo, a repetitiva espinha dorsal de uma novela poderia ser compensada pela qualidade dramatúrgica envolvida, com densidade de descrição de personagens, e complexas tramas internas, mas também não é o caso. Os personagens mudam de nome, de rosto, mas permanecem os mesmos, de posições bem delimitadas, quase maniqueístas, com raras exceções.
Ao longo de sua história, as novelas se dedicaram a uma estratégia peculiar na busca por cativar a audiência. As narrativas pobres, de tempos em tempos, apresentavam supostos pioneirismos, a fim de surpreender o público. Ao folhetim sem audácia introduziu-se a cena do beijo. Um choque! Depois do beijo, o primeiro nu. Um escândalo! Saturados, vieram os cortes de cabelo em cena, a questionável responsabilidade social na elaboração de temas, os beijos homossexuais e por último as cenas explícitas de sexo. Logo virão os palavrões, tomem nota. Não é que estas inserções substituam a função do suspense, do mistério, do por vir, mas acabam por compensar a incapacidade de algumas tramas em fazê-lo.
Estes recursos já não são novidade, o público os domina. Ora, se eu sei como começa, sei como termina, e sei como se desenvolve, por que assisto? É possível que a novela tenha se tornado de tal maneira inerente a cultura do povo brasileiro, que este não a questione, não a exija, apenas a confira. São raros os casos de novelas fracassadas em audiência, o que corrobora com o pensamento de que para o brasileiro, previsível ou não, tudo bem.