Notícia de semanas atrás sobre o trem-bala Rio-Sampa, projeto megalomaníaco da presidência, relata impasse difícil de acreditar. Ocorre que o orçamento da obra, estimado em R$35 bi, saltou para R$55 bi, valor que os “pobrezinhos”, donos das maiores empreiteiras brasileiras, não querem pagar. Eles exigem que o governo triplique o valor de seu subsídio (subsídio = pó ficá pro cs) de R$4 bi para R$12 bi, aumentando também o valor do investimento na empresa estatal criada para gerenciar a linha.
Toda a ideia do trem-bala é envolta em manto que beira a estupidez, tamanho o absurdo que é dizer que um país, com o déficit cultural e social como o nosso, investirá R$ 55 bi em uma obra que beneficiará alguns seletos cidadãos, cansados de gastar seu precioso tempo nas pontes aéreas e capazes de arcar com o preço da passagem, que se estima, custará em torno de R$ 175,00.
Turistas talvez usufruam da tecnologia, mas a fatia que mais gozará do projeto é a dos empresários, artistas e políticos. João, José e Maria estão por fora do eixo Rio - Sampa e preocupam-se mais com o transporte coletivo diário, sem lugares, sem conservação, sem o mínimo de dignidade. Quisera eles ter um simples metrô ou trem urbano, que os ajudasse a economizar tempo e saúde no trajeto para o trabalho. Poderiam dormir mais, talvez acordar mais dispostos, e no fim de semana, sair para ir ao cinema ou teatro, sem a preocupação de não ter como voltar.
Fica evidente que o Brasil entrou em um momento de sua história em que a falta de cultura e base pesam na avaliação do que fazer com o dinheiro que tem. Ontem à noite, notícia na TV dava conta de que a arrecadação do primeiro semestre de 2011 bateu novo recorde. Fato que só corrobora a assertiva histórica de que somos um país rico. A questão é: ter riqueza é suficiente? Ou saber usá-la é que é o primordial?
A figura brasileira se assemelha a do indivíduo novo rico, que durante boa parte de sua vida foi pobre, e por obra do acaso enriqueceu de súbito. Ainda que me seja custoso admitir, a realidade é imperiosa: O Brasil é a lady Kate da comunidade internacional.
Lady Kate é personagem do programa Zorra Total da TV Globo. Uma ex-mulher da vida, que herdou fortuna de um amásio, e agora tenta se inserir na high society. Seu bordão nos serve como luva: Grana eu tenho, só me falta-me o glamour.
O que mais podemos dizer de um país, que vendo as necessidades básicas de seu povo, carente por saneamento e educação, prefere investir em um projeto cujo objetivo é puramente mostrar o Brasil em um ciclo de tecnologia e evolução que não temos? Por que insistir em uma ideia que fere de completo o bom censo, e que não encontra apoio na sociedade? O que queremos provar com a construção desse empreendimento, que temos trem-bala, mas não temos esgoto?
Nem mesmo a própria construção do trem é certa, já que a questão não são apenas recursos, mas também tecnologia para fazê-lo. O trem-bala brasileiro seria construído a partir de tecnologia coreana, mas ao que parece essa tecnologia não está completa e é imprecisa, restando a opção de importar o projeto francês. Logo, além de querer erguer um imenso elefante branco, não sabemos como.
O que sabemos é que ele seria gerido por mais uma estatal, depósito de apadrinhados políticos, que nada entendem de trem, ainda que alguns possam saber bem o que é bala. As consequências óbvias, e de longa data conhecidas, são corrupção, inchaço da máquina pública, desvio de verba e inoperância do sistema.
Assim como Lady Kate o Brasil tem que entender que para evoluir, e ocupar espaço de destaque, não só a capa do livro tem que brilhar, mas seu conteúdo, sua capacidade cultural e intelectual. Livrar-se do espírito de pobre, que limita a visão àquilo que é exterior, é o que nos fará perceber que nossa real carência é de base e berço. Lady Kate como diz, pode continuar “pagando”, que além das risadas, o máximo prejuízo que causará é em seu próprio bolso. Já nós...
O "CCC - Cantos, Crônicas e Críticas" é uma escrivaninha dedicada a música, o cotidiano e suas minúcias, navegando por vezes pela via doce do humor, ou da ácida ironia, que não raras se misturam. Leia, compartilhe, ria, comente, dialogue.
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
sábado, 18 de junho de 2011
Oração ao dia.
Ensaio com moradores da Colônia Santa Izabel, em Betim, Minas Gerais. A comunidade abriga mais de 4000 pessoas, e foi criada a 80 anos com a intenção de abrigar e dar tratamento a portadores de Hanseníase.
"Agradeço ao pai todos os dias
A luz da estrela que alerta
E na manhã me invade a vida
Ilumina, anima e desperta
Encho-me de gratidão por estar vivo
Ainda que esta vida seja incerta,
Pois nada me falta que não seja inútil
Nada me sufoca ou aperta
E assim feliz me abro ao mundo
Com sorriso que a vontade atesta
Certo que, se meu corpo tem falhas
Senhor, me deste uma alma completa."
Sempre aprendendo, e cada vez mais descobrindo que nada sei sobre a vida
sábado, 21 de maio de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
Papo de elevador
No edifício que trabalho, além de clínicas médicas e exames radiográficos, há também clínicas estéticas. No elevador indo embora, paramos no 9° andar, onde fica um centro estético de micro-intervenções. Entra uma Coroa, aparentando 50 anos, muito enxuta, cheirando a Dior e com bolsa Victor Hugo. Ao lado, uma outra senhora, calça de lycra preta, sandália rasteira, bolsa simples, pelo rosto parecendo mais velha que a primeira.
A Coroa diz: " Semana que vem, assim que chegar, eu venho colocar. Deve vir dos EUA, acho que vai ficar uns R$ 6 mil."
A Amiga: "Nossa, você vai vir mesmo? Caro hein?"
A Coroa: "NADA, BOBA..."
A Amiga então abriu um sorriso literalmente amarelado, sem graça sem dúvida, mas sem querer deixar transparecer à Coroa, que para ela, os R$ 6 mil pareciam impossíveis. Talvez imaginasse, caso desse o braço a torcer, que perderia a consideração da Coroa, de Dior e Victor Hugo.
Futilidade, falsidade e desigualdade. "Eta vida besta meu Deus!
A Coroa diz: " Semana que vem, assim que chegar, eu venho colocar. Deve vir dos EUA, acho que vai ficar uns R$ 6 mil."
A Amiga: "Nossa, você vai vir mesmo? Caro hein?"
A Coroa: "NADA, BOBA..."
A Amiga então abriu um sorriso literalmente amarelado, sem graça sem dúvida, mas sem querer deixar transparecer à Coroa, que para ela, os R$ 6 mil pareciam impossíveis. Talvez imaginasse, caso desse o braço a torcer, que perderia a consideração da Coroa, de Dior e Victor Hugo.
Futilidade, falsidade e desigualdade. "Eta vida besta meu Deus!
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