Estava costumeiramente preguiçoso na poltrona frente à televisão, mergulhando a canoa de pão francês na média de café com leite, quando o interfone tocou. Tão cedo, interfone que toca não é boa coisa. “Quem é?”. Assim mesmo, sem muito zelo. “Tenho uma encomenda para o segundo andar, você pode receber?”
Fui ao banheiro, joguei uma água fria no rosto para retirar os entulhos, e equilibrei o pão sobre a caneca de café, imaginando tratar-se de procedimento rápido. Abri o portão, e lá estava um homem baixo, vestindo calça de linho preto e camisa listrada. Nos pés um sapato de bico fino. O cabelo, em forma de cogumelo encaracolado, brilhava com a incidência do sol. Nas mãos, o barrigudinho trazia um molho de chaves, e uma resma de papel grampeado.
Ele me encarou, enrugando a testa um pouco assustado. O modo como eu o encarei ao abrir o portão, talvez fosse a causa:
- Oi, bom dia cidadão, meu nome é Fulano de Talzinho, eu sou candidato a vereador aqui do bairro, eu queria conversar com você sobre seu apoio.
- O senhor é dos Correios?
- Não, sou não. – e riu depois.
- Bom, o senhor bateu o interfone dizendo que tinha uma encomenda para mim. – eu não ri.
- Não... Sabe o que é? Eu queria conversar com alguém do prédio, para pedir apoio na campanha, mostrar minhas intenções. Está aqui a encomenda que eu tava falando, aqui estão minhas propostas, meu número, meu partido, tudinho. – disse mostrando a resma de papel digitado.
- Bom, então o senhor me atrai até o portão, às 9h da manhã, mentindo, para me convencer a lhe dar o meu apoio, é isso?
- Não, amigo, me desculpe, você tem razão. Mas você pode perguntar a quem quer que seja aqui nessa região, quem é Fulano de Talzinho. Qualquer um deles vai te dizer. Eu tenho muita loja por aqui; muito aluguel, todo mundo me conhece. Não precisa ficar cabreiro achando que é trote ou qualquer coisa não, viu?
- Bom, seu Fulano de Talzinho, eu acho então que o senhor está na eleição errada, o senhor não acha?
- Uai, como assim você diz?
- Bom, o senhor deveria se candidatar ao Big Brother, ou qualquer outro desses programas. Esses sim são disputas de popularidade, não uma eleição municipal.
Ele riu fingindo ter entendido, agradeceu e eu fechei o portão. Mais tarde vi na caixa de correio os papéis da “encomenda” de Fulano. Não liguei para o fato de estar mal escrito, confuso e sem nexo, apesar de ter notado. O que me chamou atenção foi a frase final: por uma Santa Luzia com mais educação, saúde e segurança, e principalmente sustentável. Fulano de Talzinho está com as promessas atualizadas.
O "CCC - Cantos, Crônicas e Críticas" é uma escrivaninha dedicada a música, o cotidiano e suas minúcias, navegando por vezes pela via doce do humor, ou da ácida ironia, que não raras se misturam. Leia, compartilhe, ria, comente, dialogue.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Eternamente
Querer-te-ei eternamente,
E se achares pedante,
Ficarei afim;
E se achares vulgar,
“Requisitarei a tua presença ao meu lado”;
E se achares formal,
Cantarei Tom e Vinícius;
E se achares clichê,
Farei groove, rap ou funk, que diga o mesmo;
E se achares ridículo,
Rabiscarei um poema;
E se achares cafona,
Pintarei, desenharei, encenarei;
E se diante de meu esforço,
Ficares incrédula,
Calar-me-ei, sem desistir.
Frente a ti, calado, tomar-te-ei a boca
Na esperança que o silêncio,
Amigo da verdade,
Traduza o que há em mim,
Selando através do beijo, que devora teus lábios,
A mensagem que por vezes
E modosinfinitos, quis dizer,
E que direi,
Enquanto teu rosto morar em meu pensamento,
E teu gosto morar em minha alma:
Eternamente.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Com você
Segunda balada.
Com você
(Chico)
Com você eu sou apenas eu
Sem disfarces, nem razões para fingir
Só você, é capaz de desvendar
Meus mistérios, e com olhar me descobrir
Olhe nos meus olhos e vai encontrar
Minha alma solitária, triste a esperar
Um sonho, um devaneio , uma ilusão
De amor eterno
Me deite no teu colo quem sabe é você
Meu anjo salvador, o meu bem querer
Minha luz no fim do túnel, minha salvação
Vem que eu te espero
Minha deusa, minha flor,minha revolução
Sol que aqueceu o meu coração
Me aceite e meu tempo já não mais será
Em vão
sábado, 3 de dezembro de 2011
Minha Gente
Esta também é uma escrivaninha de música, fator que deste sua inauguração foi omitido, por falta de coragem em divulgá-la. O sentido de produzir arte, ou algo verossímil a isso, só se completa, se preenche, quando da presença do ouvinte, que compartilha a mensagem que o autor imprimiu, dando a ela sua versão de sentimentos e conexões através de seu olhar.
O desejo é que vários sentidos se completem, e que feito pássaros livres, estas impressões que compartilho possam pousar em vários ouvintes rede adentro, trazendo consigo sensações verdadeiras, e quem sabe, verões.
A primeira canção é uma oração, mal cantada, com todas as outras serão, mas verdadeira; fator igualmente constante.
O desejo é que vários sentidos se completem, e que feito pássaros livres, estas impressões que compartilho possam pousar em vários ouvintes rede adentro, trazendo consigo sensações verdadeiras, e quem sabe, verões.
A primeira canção é uma oração, mal cantada, com todas as outras serão, mas verdadeira; fator igualmente constante.
Minha gente
(Chico)
Amanheceu lá vai Bento
Botas de couro e gibão
Se apóia no firmamento
De ter de brigar o pão
Lá vai meu pobre mulato
Seu peito corta o sertão
Lá vai Maria e o balaio
Sem botas de pés no chão
Essa semana o pão é verde
De macambira é o café
Se num acabou fome reza
Se alimenta de fé
Valei-me meu Padre Cícero
Meu bom Jesus Nazaré
Apóia as pernas de Bento
Mantenha-o firme de pé
Ora Maria cansada
Arrasta o pé, mas não cai
Igarapé ainda ta longe
Mas ela tem fé no pai
Quando chegar com o balaio
Cheio de água a vazar
Um sorriso do mulato
Ela vai arrancar
E a amargura dá leito
Para esperança voltar
De bons tempos de chuva
Pra vida enfim melhorar
Alimente a esperança
Dentro do seu coração,
Mas saiba realidade
É onça sem emoção
Pois clareou e lá vai Bento
Botas de couro e Gibão
Se apóia no firmamento
De ter de brigar o pão
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